quarta-feira, 21 de julho de 2010
Da janela
Queria ver a vida da janela. E se possível, vivê-la, bem aqui do alto. Pouparia tantas vírgulas assim. É que as histórias que vejo aqui de cima são tão perecíveis que não há tempo de virgular. Da janela, uso mais exclamações. Mas, vez ou outra, abro uma exceção para a interrogação e me deixo pensar. Será que ele volta? Por outro lado, me falta coragem para colocar um ponto final naquilo que vejo daqui, tão distante. Me acalma. Então, faço concessões e vivo de reticências. É daqui da janela que vejo a banda do Chico passar cantando coisas de amor.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Mais além
“Todo jornalista quando presencia um fato, logo imagina uma pauta”. Me senti de fora da generalização que ouvi hoje pela manhã. Pois no meu caso, eu logo imagino um conto. Ou quando mais inspirada, uma cena em preto e branco.
É que eu gosto de cenários, de personagens – vou além do fato. Mas não penso neles de forma puramente utilitária. Transporto-os para meu mundo de suposições. Em instantes, já os coloquei em cena e com as falas devidamente decoradas.
É que eu gosto é de gente. Mais de longe do que de perto; mas gente. Eu, que preciso tanto de raízes, me permito viajar nos sonhos dos outros vez ou outra.
E que delícia, (!) quando posso transformá-los em sonhos meus.
É que eu gosto de cenários, de personagens – vou além do fato. Mas não penso neles de forma puramente utilitária. Transporto-os para meu mundo de suposições. Em instantes, já os coloquei em cena e com as falas devidamente decoradas.
É que eu gosto é de gente. Mais de longe do que de perto; mas gente. Eu, que preciso tanto de raízes, me permito viajar nos sonhos dos outros vez ou outra.
E que delícia, (!) quando posso transformá-los em sonhos meus.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Poesia em Prosa
Descobri que esqueci como se faz poesia. Mas aí, me lembrei que ela está sempre adormecida no coração daquele que ama. Aí, me confortei e sussurrei pra poesia umas coisas que tão morando aqui no meu coração. Ela entendeu, e disse que eu posso te abraçar bem forte, que daí, ela faz a poesia pra você com o que tiver de melhor em mim.
Aí eu gostei.
Aí eu gostei.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Um suspiro de poesia
Esta semana, posso dizer que houve poesia. Poesia proporcionada pelo 8º Ferverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas. Realizado com muita luta por quem gosta e vive teatro - e com a ajuda de apoiadores (26, como sempre enfatizavam as organizadoras antes de cada apresentação) - grupos de Campinas, de outros Estados e de fora do país proporcionaram ao público de Campinas - apesar dos pesares, carente em arte - um suspiro de poesia. Como não assisti a todas as apresentações, não posso me atrever a fazer uma análise global. Mas posso dizer das coisas que vi.
Meninas, corram! Lotou o simpático e acolhedor Teatro do Sesc, mas decepcionou. Tinha tudo, mas falhou. Falou no texto, na direção de atores (apesar de ser um monólogo) e na expressão cênica. Falhou, sobretudo por ser pretensiosa. O espetáculo com um tema atual e muito explorado comercialmente (a luta - e loucura! - das mulheres para manter os diversos papéis exigidos pela sociedade: mãe, mulher, profissional, amante e tantos outros), tinha um público interessado e aberto a seu dispor. Um público a fim de ver novidade e de se encantar diante da arte. Mas o que se viu, durante e depois do espetáculo, foi uma pontinha de vergonha alheia. Entendem quando digo isso, não? Hahahaha
Enfim, apesar de tudo, a peça trouxe uma trilha sonora que, ao mesmo tempo, envolvia e dava (tentava dar...) dinamismo para a cena. Cheia de símbolos e com a pretensão de ser 'cult' demais, a peça perdeu seu brilho e desperdiçou um público cheio de boa vontade.
Já ontem, vivi uma das experiências mais gostosas como espectadora. Chegamos ao Espaço Cultural Semente, em Barão Geraldo, mais de meia hora antes de o espetáculo “Cravo, Lírio e Rosa” começar. Mas já não havia mais ingressos. Entramos na fila de espera. Mais de 40 minutos depois, tive a sorte (olha a raridade!) de ser a antepenúltima pessoa a ser chamada! Enfim, ingresso na mão e parti pra dentro. Um espaço de gente de teatro. Com cara e cheiro de teatro. Aí, já gostei!
Apesar de a plateia ser um pouquinho desconfortável (afinal, depois de esperar, em pé, durante 40 minutos, acho que precisava de um lugarzinho mais acolchoado pra sentar...). Tudo foi bonito: a criação daquela dupla de palhaços 'clownescos', o roteiro e o improviso, os artifícios cênicos e o jogo, em si, deixaram brilhando os olhos daqueles que nem precisavam entender a complexidade daquela criação para apreciar a boa arte. A dupla funcionava muito bem. Claramente inspirados no modelo de “O Gordo e o Magro”, o espetáculo deu um pouco de ternura a quem tinha perdido e renovou as esperanças de que é possível viver com poesia.
Ao final, as organizadoras fizeram um agradecimento emocionado.
Aplauso, de pé, por um longo tempo. Com a infinitude que dura a poesia.
*Cravo, Lírio e Rosa” homenageou os 25 anos do Lume.
*Meninas, corram! É uma montagem do grupo Nu Miollo, da Bahia.
O 8ºFeverestival começou no dia 31 de janeiro e termina dia 12 de fevereiro.
Meninas, corram! Lotou o simpático e acolhedor Teatro do Sesc, mas decepcionou. Tinha tudo, mas falhou. Falou no texto, na direção de atores (apesar de ser um monólogo) e na expressão cênica. Falhou, sobretudo por ser pretensiosa. O espetáculo com um tema atual e muito explorado comercialmente (a luta - e loucura! - das mulheres para manter os diversos papéis exigidos pela sociedade: mãe, mulher, profissional, amante e tantos outros), tinha um público interessado e aberto a seu dispor. Um público a fim de ver novidade e de se encantar diante da arte. Mas o que se viu, durante e depois do espetáculo, foi uma pontinha de vergonha alheia. Entendem quando digo isso, não? Hahahaha
Enfim, apesar de tudo, a peça trouxe uma trilha sonora que, ao mesmo tempo, envolvia e dava (tentava dar...) dinamismo para a cena. Cheia de símbolos e com a pretensão de ser 'cult' demais, a peça perdeu seu brilho e desperdiçou um público cheio de boa vontade.
Já ontem, vivi uma das experiências mais gostosas como espectadora. Chegamos ao Espaço Cultural Semente, em Barão Geraldo, mais de meia hora antes de o espetáculo “Cravo, Lírio e Rosa” começar. Mas já não havia mais ingressos. Entramos na fila de espera. Mais de 40 minutos depois, tive a sorte (olha a raridade!) de ser a antepenúltima pessoa a ser chamada! Enfim, ingresso na mão e parti pra dentro. Um espaço de gente de teatro. Com cara e cheiro de teatro. Aí, já gostei!
Apesar de a plateia ser um pouquinho desconfortável (afinal, depois de esperar, em pé, durante 40 minutos, acho que precisava de um lugarzinho mais acolchoado pra sentar...). Tudo foi bonito: a criação daquela dupla de palhaços 'clownescos', o roteiro e o improviso, os artifícios cênicos e o jogo, em si, deixaram brilhando os olhos daqueles que nem precisavam entender a complexidade daquela criação para apreciar a boa arte. A dupla funcionava muito bem. Claramente inspirados no modelo de “O Gordo e o Magro”, o espetáculo deu um pouco de ternura a quem tinha perdido e renovou as esperanças de que é possível viver com poesia.
Ao final, as organizadoras fizeram um agradecimento emocionado.
Aplauso, de pé, por um longo tempo. Com a infinitude que dura a poesia.
*Cravo, Lírio e Rosa” homenageou os 25 anos do Lume.*Meninas, corram! É uma montagem do grupo Nu Miollo, da Bahia.
O 8ºFeverestival começou no dia 31 de janeiro e termina dia 12 de fevereiro.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Não por acaso
Você entra no elevador. Como todos os dias. E ele sempre cheio. Aí, hoje, você encontra só uns três homens. Dois de terno e o outro de jeans e all star. E você.
Geralmente você não cumprimenta. Ninguém. Mas hoje foi diferente. Disparou um sorriso na medida: nem amarelo nem oferecido demais.
E pensa: “vai que o elevador para e eu fico presa aqui. Eu e eles. Tenho que me mostrar simpática, mas na medida. O suficiente para encantar os dois de terno (afinal, eles devem conhecer alguém importante e me arranjar um novo emprego depois de passarmos horas conversando e descobrirem o meu potencial para Relações Públicas. Já o de jeans... Bem, é ele quem vai arregaçar as mangas e dar um jeito de me tirar daqui. Vitoriosa”.
Título em homenagem ao lindíssimo filme de Philippe Barcinski que eu relembrei um pouco hoje pela manhã.
Geralmente você não cumprimenta. Ninguém. Mas hoje foi diferente. Disparou um sorriso na medida: nem amarelo nem oferecido demais.
E pensa: “vai que o elevador para e eu fico presa aqui. Eu e eles. Tenho que me mostrar simpática, mas na medida. O suficiente para encantar os dois de terno (afinal, eles devem conhecer alguém importante e me arranjar um novo emprego depois de passarmos horas conversando e descobrirem o meu potencial para Relações Públicas. Já o de jeans... Bem, é ele quem vai arregaçar as mangas e dar um jeito de me tirar daqui. Vitoriosa”.
Título em homenagem ao lindíssimo filme de Philippe Barcinski que eu relembrei um pouco hoje pela manhã.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Uma história entre ( )
(Num dia de dezembro)Reconheci-o-o pelo guarda-chuva. Em época de Sol à pino, é sempre bom tê-lo por perto. Mas ele era assim, desde sempre. Verão e Inverno são datas de guarda-chuva. Mas ele insistia neste hábito mesmo nos “morninhos” outono e primavera (naquele tempo, pelo menos, estas estações ainda podiam ser consideradas “morninhas”). A gente se conheceu naquela época da infância em que é normal menino odiar menina. Uns oito anos, por aí. Eu, sempre sentada na primeira fileira (de frente para a professora). E ele sempre na última carteira. Era conhecido como o “bundão do fundão”. Não tinha sido escolhido pelos colegas para se sentar lá no fundo. Ele havia escolhido o recanto pra ficar sozinho. Via todo mundo e sabia quando era visto (não podia ver um pescoço ensaiando uma virada...uma espreguiçada...já pensava logo que era alvo de alguma nova perseguição). Ele não estava muito diferente quando o vi esta semana. Uns 20 anos depois da primeira vez. Continuava com seu tênis surrado, a camiseta da última eleição virada do avesso, o cabelo encaracolado a lhe cobrir os olhos e o guarda-chuva, à vista, na mochila. Foi quando eu estava voltando, numa sexta-feira, de ônibus pra casa, lá na antiga cidade de meus pais. (Que ironia: eu e ele, depois de sair da casa dos pais, fomos parar na mesma cidade grande). Eu, orgulhosa de tudo que havia conquistado desde aquela época do colégio, não sabia o que pensar dele. Me parecia tão igual. É certo que havia espichado bastante, como diria minha vó, e continuado a cultivar uma barriguinha saliente (hoje de chopp, o que outrora fora resultado de assaltos noturnos à geladeira da mãe, que fazia doces pra fora). Quando me dei conta, estava eu, pretensiosamente como sempre, colocando o moço no seu devido (devido?) lugar. Lhe dei uma profissão (parecia auxiliar de escritório, pude adivinhar um crachá no bolso lateral de sua mochila) , um lar (moraria com um primo, bem ali perto da prefeitura) e um prazer (olhar a vida da pequena sacada de seu apartamento que, curiosamente, tinha uma visão privilegiada do ponto de ônibus mais movimentado do centro da cidade. Ironicamente, o local que abrigava – em meio a uma torrencial e inesperada chuva de verão – os desprevenidos, sem capa ou guarda-chuva. Ele ria muito, lá de cima, e abria seu guarda-chuva para se esbaldar em sua própria prudência).
Ele sempre fora assim, um prevenido insuportável a vigiar o tempo. E a me vigiar. Porque assim que descemos do ônibus, ele pegou o guarda-chuva da mochila, abriu-o e seguiu sorrindo pela rua ensolarada. Parecia que queria me provar seu poder. Havia me vigiado a viagem inteira. E o tempo dos meus pensamentos... (urg!)
Ele sempre fora assim, um prevenido insuportável a vigiar o tempo. E a me vigiar. Porque assim que descemos do ônibus, ele pegou o guarda-chuva da mochila, abriu-o e seguiu sorrindo pela rua ensolarada. Parecia que queria me provar seu poder. Havia me vigiado a viagem inteira. E o tempo dos meus pensamentos... (urg!)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Ela quem?
Fadiga. Ela se via diante do espelho e se assustava com a incapacidade de coordenar a respiração. Estava ficando velha. Antes, subir o pequeno lance de escadas que a levava para a grande suíte era atividade rotineira. Não lhe tirava o ar. Agora, sozinha ali naquela casa, não era mais dona de nada. Faltava-lhe o ar.
Naquela manhã, a filha havia ligado. “Estou preocupada”, dizia ela. Então a convidou para almoçar.
Sentara para fazer as últimas palavras-cruzadas que lhe restavam. A vontade de ir à banca de jornal, assim como o ar, também lhe faltava.
Com o som da campainha, acordou do sonho breve que tivera ali mesmo, sentada no sofá. Surrado.
A filha, animada que só ela, aparecia do outro lado da grade com um buquê nas mãos e um misto de medo e alegria estampado nos olhos. Estava dando uma chance a ela. A elas.
Emocionadas, abraçaram-se.
A mãe a levava agora pelos corredores que a menina havia brincado quando criança. Daquelas lembranças infantis, só restava pó. Abandono. Tristeza. A casa já não tinha vida há muito. Ela é que não queria aceitar. Ela?
Juntas, se sentaram na mesa da cozinha. Ela – mãe - ouvia a filha com atenção, mas com os olhos perdidos entre os potes de mantimentos vazios nas prateleiras.
Ela – filha – fez então a mais óbvia das perguntas que alguém que foi convidado para almoçar pode fazer: “Onde está a comida?”.
Não, não, não.
Havia esquecido de dizer a ela que a vontade de comer, como o ar, também havia fugido. Adeus, prazer! Não venha me incomodar com suas graciosas artimanhas de sedução! Ela havia decidido há pouco que não comeria mais. Apenas se esquecera de avisar.
Ela ficou doida!Já não podia mais com aquilo. Ver a vida se desfazendo em migalhas...
Tomou-a pelas mãos e disse:
-Venha comigo, precisamos reencontrar o ar.
Naquela manhã, a filha havia ligado. “Estou preocupada”, dizia ela. Então a convidou para almoçar.
Sentara para fazer as últimas palavras-cruzadas que lhe restavam. A vontade de ir à banca de jornal, assim como o ar, também lhe faltava.
Com o som da campainha, acordou do sonho breve que tivera ali mesmo, sentada no sofá. Surrado.
A filha, animada que só ela, aparecia do outro lado da grade com um buquê nas mãos e um misto de medo e alegria estampado nos olhos. Estava dando uma chance a ela. A elas.
Emocionadas, abraçaram-se.
A mãe a levava agora pelos corredores que a menina havia brincado quando criança. Daquelas lembranças infantis, só restava pó. Abandono. Tristeza. A casa já não tinha vida há muito. Ela é que não queria aceitar. Ela?
Juntas, se sentaram na mesa da cozinha. Ela – mãe - ouvia a filha com atenção, mas com os olhos perdidos entre os potes de mantimentos vazios nas prateleiras.
Ela – filha – fez então a mais óbvia das perguntas que alguém que foi convidado para almoçar pode fazer: “Onde está a comida?”.
Não, não, não.
Havia esquecido de dizer a ela que a vontade de comer, como o ar, também havia fugido. Adeus, prazer! Não venha me incomodar com suas graciosas artimanhas de sedução! Ela havia decidido há pouco que não comeria mais. Apenas se esquecera de avisar.
Ela ficou doida!Já não podia mais com aquilo. Ver a vida se desfazendo em migalhas...
Tomou-a pelas mãos e disse:
-Venha comigo, precisamos reencontrar o ar.
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